sexta-feira, março 24, 2006

Comentário do dia

- Este museu é muito primitivo não é?
- Desculpe?
- É Etnológico por isso é primitivo!
- Desculpe?????
- Primitivo, Etnológico, os ratos não teem rodinhas...

No Coments

segunda-feira, março 20, 2006

Dark side

"Come and ask me if I want to dance with you
I think you will.
It gets cold and lonely on my dark side of the moon,
The air thin and chill.

Come and show me what the grey world looks like when it's blue;
I think you can.
You've got golden lips and I have got a silver spoon;
We don't need romance

'cause i've danced with romeos and gigolos, philosophers and slackers,
vagabonds and cambridge dons, the king of cool heir apparent,
infidels and jezebels, and poets with no talent...
but they've never shone on the dark side of my moon.

I was thinking love is just a complicated game
You play in the dark.
No-one told me strategy was only for defence
And winners thank luck.

Take my hand and show me how to spin around this floor;
I don't know how!
Come unlearn me everything i've ever learned before,
I'm ready now.

Now that you've warmed me, i never want to be that cold again.
Cold may be easy but nothing,
Nothing comes to nothing in the end.

Take my hand and lead me where the music is alive;
I think you can.
You've got golden lips and a whole lifetime in your eyes;
We don't need no plan.

Come and ask me if i want to dance with you;
I think you will
And when a thousand moons have spun around this earth of ours
We'll be dancing still..."

Polly Paulusma

sexta-feira, março 17, 2006

João e Maria

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy Era você
Além das outras três

Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz

E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido

Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal
Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu no meu mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim

Chico Buarque

domingo, dezembro 11, 2005

Inside my shell




I'll be back when I'm ready.

domingo, outubro 30, 2005

Language & Dreams



If language were liquid
It would be rushing in
Instead here we are
In a silence more eloquent
Than any word could ever be
These words are too solid
They don't move fast enough
To catch the blur in the brain
That flies by and is gone
Gone
Gone
Gone

I'd like to meet you
In a timeless, placeless place
Somewhere out of context
And beyond all consequences

(...)
I won't use words again
They don't mean what I meant
They don't say what I said
They're just the crust of the meaning
With realms underneath
Never touched
Never stirred
Never even moved through

Suzanne Vega

sábado, setembro 03, 2005

Eu te amo

Este texto foi-me enviado por uma amiga
é para gostar e para pensar!



Eu Te Amo Não Diz Tudo

"O cara diz que te ama, então tá! Ele te ama. Sua mulher diz que te ama, então, assunto encerrado. Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas.
Mas ouvir que é amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de quilômetros.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certas.

Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou há dois anos atrás(não precisa ser exatamente detalhes), é ver como ela fica triste quando você está triste.

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição, na hora da discussão...

Sente-se amado aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido (ou respeitado).

Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.

Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta (é, nisso nós vamos aprendendo).

(Arnaldo Jabor) - Adaptado

quinta-feira, agosto 25, 2005

Gritar com as árvores

Ontem lembrei-me de uma frase e hoje devolveram-me o livro de onde ela saíu fica aqui o texto completo.

Nas ilhas Salomão, no Pacífico Sul, alguns aldeões praticam uma forma única de cortar árvores.
Se uma árvore é demasiado grande para ser deitada abaixo com um machado, os nativos deitam-na abaixo gritanto (Não sei onde está o artigo, mas juro que o li.) Lenhadores com poderes especiais sobem a uma árvore de madrugada e subitamente começam a gritar-lhe com toda a força dos seus pulmões. Continuam assim durante 30 dias. A árvore morre e cai. A teoria é que a gritaria mata o espírito da árvore. Segundo os aldeões, isso resulta sempre.

Ah, esses pobres inocentes ingénuos. Que hábitos encantadores da selva. Gritar às árvores, na verdade. que coisa tão primitiva. É pena não terem as vantagens da tecnologia moderna e espírito científico.

Eu? Grito com a minha mulher. E grito com o telefone e com a máquina de cortar a relva. E grito com a TV e os jornais e com os meus filhos. Por vezes, até tenho fechado o punho e gritadopara o céu.

O homem que mora ao meu lado farta-se de gritar com o carro. E este ano ouvi-o a gritar com um escadote quase durante a tarde inteira. Nós, pessoas urbanas, modernas, educadas, gritamos para o tráfego e para os árbitros, contra as contas, bancos e máquinas. As máquinas e os parentes é que ouvem a maior parte dos gritos.

Não sei para que serve gritar. As máquinas e as coisas ficam na mesma. Nrm mesmo dar pontapés ajuda sempre. Quanto às pessoas, bem, os ilhéus das ilhas Salomão se calhar têm razão. gritar com coisas vivas pode matar o espírito delas. Paus e pedras podem quebrar os nossos ossos, mas as palavras podem partir os nossos corações...

Robert Fulghum in Tudo o que eu devia saber na Vida Aprendi no Jardim de Infância

terça-feira, agosto 16, 2005

Atitude

Não sei se foi a atitude ou não
Só sei que correu muito bem
Dia Bom :D

terça-feira, agosto 09, 2005

Credo do Narrador de Histórias

Hoje foi um dia bom :)
Hoje dá para acreditar

*********************************

Credo do Narrador de Histórias:

Creio que a imaginação é mais forte que o conhecimento
Que o mito é mais potente do que a história
Que os sonhos são mais poderosos que os factos
Que a esperança triunfa sempre sobre a experiência
Que o riso é a unica cura para a mágoa
E acima de tudo creio que o Amor é mais forte do que a morte

Robert Fulghum

domingo, julho 31, 2005


eu

Pilgrim

Pilgrim

Pilgrim, how you journey
On the road you chose
To find out where the winds die
And where the stories go.

All days come from one day
That must you must know,
You cannot change what's over
But only where you go.

One way leads to diamonds,
One way leads to gold,
Another leads you only
To everything you're told.

In your heart you wonder
Which of these is true;
The road that leads to nowhere,
the road that leads to you.

Will you find the answer
in all you say and do?
Will you find the answer
In you?

Each heart is a pilgrim,
Each one wants to know
The reason why the winds die
And where the stories go.

Pilgrim, in your journey
You may travel far,
For pilgrim it's a long way
To find out who you are...

Pilgrim, it's a long way
To find out who you are...

Pilgrim, it's a long way
To find out who you are...

Enya

sábado, julho 30, 2005

Deusa

quinta-feira, julho 28, 2005

Balada do Desajeitado

Todos os anos no Castelo em Quadrilha
Dançar até cair para o lado
Até cair de exaustão
e purgar tudo o que me atormenta

******************************

Balada do Desajeitado

Sei de alguém por demais envergonhado
Que por ser tão desajeitado
Nunca foi capaz de falar
Só que hoje viu o tempo que perdeu
Sabes esse alguém sou eu
E agora eu vou-te contar

Sabes lá o que é que eu tenho passado
Estou sempre a fazer-te sinais
E tu não me tens ligado
E aqui estou eu
A ver o tempo a Passar
A ver se chega o tempo
De haver tempo para te falar

Eu não sei o que é que te hei-de eu dar
Nem te sei inventar frases bonitas
Mas aprendi uma ontem, só que já me esqueci
Então olha gosto muito de ti

Podes crer que à noite o sono é ligeiro
Fico à espera o dia inteiro
Para poder desabafar
Mas como sempre
Chega a hora da verdade
E falta-me o à vontade
Acabo por me calar

Falta-me o jeito
Ponho-me a escrever e rasgo
Cada vez a tremer mais
Que as vezes até me engasgo

Nada a fazer
E é por isso que eu te conto
É tarde para não dizer
Digo como sei e pronto
Eu não sei o que é que te hei-de eu dar Nem te sei inventar frases bonitas
Mas aprendi uma ontem, só que já me esqueci
Então olha eu gosto muito de ti
Quadrilha

terça-feira, julho 26, 2005

Always

sexta-feira, julho 01, 2005

O Jogo das Escondidas

O Jogo das Escondidas

No início dos tempos, reuniram-se todos os sentimentos e qualidades dos homens num lugar da Terra. Quando o Aborrecimento já se queixava pela terceira vez, a Loucura, como sempre tão louca, propôs-lhes:- Vamos brincar às escondidas?

A Intriga levantou a sobrancelha intrigada, e a Curiosidade, sem poder conter-se, perguntou:- Escondidas? Como é isso?- É um jogo, explicou a Loucura, em que eu fecho os olhos e começo a contar de um a um milhão, enquanto vocês se escondem, e quando eu tiver terminado de contar, o primeiro queencontrar ocupará o meu lugar para continuar o jogo.

O Entusiasmo dançou seguido pela Euforia, a Alegria deu tantos saltos que acabou por convencer a Dúvida e até mesmo a Apatia.Mas nem todos quiseram participar, a Verdade preferiu não se esconder...para quê? Se no final todos a encontravam?A Soberba opinou que era um jogo muito tonto (no fundo, o que a incomodava era que a ideia não tivesse sido dela), e a Cobardia preferiu não se arriscar.

- Um, dois, três, quatro... - começou a Loucura a contar. A primeira a esconder-se foi a Pressa, que como sempre caiu atrás da primeira pedra do caminho.

A Fé subiu ao céu e a Inveja escondeu-se atrás da sombra do Triunfo, que com seu próprio esforço tinha conseguido subir na copa da mais alta árvore.

A Generosidade, quase não conseguia esconder-se, pois cada local que encontrava, parecia-lhe maravilhoso para alguns de seus amigos: se era um lago cristalino, ideal para a Beleza. Se era uma árvore, ideal para a Timidez se esconder na sua copa, se era o voo de uma borboleta ou uma rajada de vento, magnífico para a Liberdade. E assim, acabou por esconder-se num raio de sol.

O Egoísmo, ao contrário, encontrou um local muito bom desde o início. Ventilado e cómodo, mas apenas para ele.

A Mentira escondeu-se no fundo do oceano (mentira, na realidade, escondeu-se atrás do arco-iris) e a Paixão e o Desejo, no centro dos vulcões.

O Esquecimento, não me recordo onde se escondeu, mas isso não é o mais importante.
Quando a Loucura estava já pelos 999999, o Amor ainda não tinha encontrado um local para se esconder, pois já todos estavam ocupados, até que encontrou uma roseira e, carinhosamente, decidiu esconder-se entre as suas flores.

- "Um milhão", contou a Loucura e começou a busca.

A primeira a aparecer foi a Pressa, apenas a três passos de uma pedra.

O Egoísmo, nem teve que o procurar! Ele saiu disparado sozinho do seu esconderijo, que na verdade era um ninho de vespas.

De tanto caminhar, sentiu sede, e ao aproximar-se de um lago, descobriu a Beleza. A Dúvida foi mais fácil ainda, pois encontrou-a sentada sobre uma cerca sem decidir de que lado se esconder.

E assim, foi encontrando-os a todos.

O Talento entre a erva fresca, a Angústia, numa cova escura, a Mentira atrás do arco-iris (mentira, estava no fundo do oceano) e até o Esquecimento, que já se tinha esquecido que estava a brincar ás escondidas.

Apenas o Amor não aparecia em local nenhum... A Loucura procurou atrás de cada arvore, por baixo de cada rocha do planeta e em cima das montanhas!

Quando estava a ponto de se dar por vencida, encontrou um roseiral, pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando, no mesmo instante, escutou-se um doloroso grito.

Os espinhos tinham ferido o Amor nos olhos. A Loucura não sabia o que fazer para desculpar-se. Chorou, chorou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser seu guia.

Desde então, desde a primeira vez que se brincou às escondidas na Terra que o Amor é cego, e a Loucura sempre o acompanha !
Autor Desconhecido

quarta-feira, abril 20, 2005

*

Trabalha como se não precisasses de dinheiro
Ama como se o amor não te pudesse magoar
Dança como se ninguém estivesse a ver
Canta como se ninguém estivesse a ouvir
Vive como se o Céu já tivesse descido à Terra.
Que tenhas sempre trabalho para fazer
Que a tua bolsa tenha sempre uns trocos
Que o Sol sempre brilhe na tua janela
Que após cada chuvada venha sempre o arco-íris

(Autor Desconhecido)

A invenção do amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos
nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de apa-
relhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade

A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo

É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos decrete-se a lei marcial com todas as conse-quências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos

Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação

Mas é possível que haja outros
É absolutamente vitalque o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulherde que fala no cartaz colado em todas as esquinas dacidade

(...)

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los É indispensável descobri-los

Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os Escutou deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas

E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

(...)

A identificação é fácil Onde estiverem estará também pou­sado sobre a porta um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um Vê-Ios-ão possivelmente dissolver-se no ar
Mas estará completo o esconjuro e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mas ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados
Que estais também per­didos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige

(...)

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias

Um velho sem família a testemunha diz ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música com gestos naturais alheios
Crê-se que a situação vai atingir o clímax e a polícia poderá cumprir o seu dever.


Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência o universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera

Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em círculos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

(...)

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resolvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual

Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção científica

Os vizinhos nunca notaram nada de especial vinha cedo para casa não tinha televisão
deitava-se sobre a cama logo após o jantar e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo

Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
­

Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A polícia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo

(Mas um grito de esperança inconsequente vem do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenétre ouverte
une fenétre eclairée)

Daniel Filipe